O desenvolvimento da ciência transformou profundamente nossa qualidade de vida. Mas, junto com o progresso, veio um fenômeno silencioso: aprendemos a gastar mais. O que antes era luxo, hoje parece necessidade. E o que antes bastava, hoje parece pouco.
Da simplicidade dos anos 80 ao luxo fitness de hoje
Decidir levar uma vida saudável, hoje, exige um investimento considerável. Tênis específicos para cada modalidade, roupas tecnológicas, academias com equipamentos de última geração, nutricionista, personal trainer, suplementos, alimentação balanceada, endocrinologista, exames e acompanhamento hormonal.
Na década de 80, o cenário era outro. Qualquer tênis servia, a comida era ajustada “no olho”, e bastava uma academia de bairro, ou até correr na rua, com o treino passado pelo professor. O gasto era mínimo, mas a decisão era a mesma: cuidar da saúde.
Essa diferença de custo não se limita ao mundo fitness — ela se espalhou por todas as áreas da vida.
O salto invisível das necessidades
Hoje, acumulamos assinaturas de Netflix, Spotify, armazenamento em nuvem, Windows e Office pagos anualmente. Carros mais sofisticados, casas repletas de eletrônicos, viagens acessíveis. Em 24 horas, cruzamos o planeta.
A medicina moderna elevou nossa expectativa de vida, mas também o custo de mantê-la. Planos de saúde, consultas, exames e tratamentos sobem muito acima da inflação.
Tudo evoluiu, inclusive o que consideramos essencial. O que antes era conforto, hoje é necessidade básica.
Sedução, ansiedade e consumo automático
As estratégias de marketing se tornaram refinadas, as campanhas publicitárias são cada vez mais emocionais, e a obsolescência programada faz os produtos durarem menos. A indústria do desejo aprendeu a agir antes mesmo de precisarmos de algo.
Nos anos 80, a publicidade era tímida. Hoje, ela é uma engenharia de persuasão. Estamos expostos o tempo todo a convites para consumir e o consumo está a um clique de distância.
Mas o maior impacto não é material. É mental. Vivemos sob a pressão invisível de estar atualizados, produtivos, saudáveis, conectados e bem vestidos. A régua mudou. E, com ela, a ansiedade para acompanhá-la.
O paradoxo é claro: nunca tivemos tanto acesso e nunca fomos tão vulneráveis ao consumo automático.
O custo de viver hoje
Antes, o orçamento familiar cobria o essencial: moradia, alimentação, transporte e saúde básica. Era possível viver com dignidade com uma renda modesta.
Hoje, a globalização e a dolarização de produtos tornaram o consumo cotidiano mais caro. Boa parte do que usamos é precificada em dólar e o custo de vida acompanha essa cotação.
Além disso, o acúmulo de riqueza nas últimas décadas inflacionou o mercado imobiliário e o custo de moradia. Viver no Brasil era, de fato, mais barato.
Curiosamente, mesmo com tantos desafios, vivemos mais confortavelmente que qualquer rei medieval. A diferença é que nossa definição de conforto se expandiu e, junto dela, a conta a pagar.



